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Hepatocarcinoma

 

O hepatocarcinoma é o câncer de fígado que surgiu de hepatócitos. A primeira descrição científica foi feita por Eggel em 1901, mostrando o resultado de mais de 200 autópsias. Hoje, 100 anos após, sabemos mais sobre o processo que leva ao seu surgimento, como ele cresce, as pessoas que tem maior risco de desenvolvê-lo, como fazer o diagnóstico precoce e – o mais importante – como tratá-lo.

Apesar de raramente ocorrer em pessoas sadias expostas a certas toxinas, como a aflatoxina (encontrada em amendoins contaminados, por exemplo) em suas grande maioria o hepatocarcinoma acomete uma população bem definida: os portadores de cirrose hepática.

A cirrose hepática é o processo final de diversas doenças do fígado: as hepatites, as lesões pelo álcool, o uso de certas medicações, a hemocromatose (acúmulo de ferro) e as colangites, entre outras. Todas essas doenças provocam a destruição dos hepatócitos, lentamente, com a formação de cicatrizes no interior do fígado, determinando a cirrose. Ao contrário do que se pensa, a maioria das cirroses atualmente são causadas pelas hepatites B e C. O alcoolismo ainda é um fator importante, mas não necessariamente naquelas pessoas que ingerem altas doses de álcool. Mesmo doses mais modestas (três a quatro garrafas de cerveja por semana) podem levar à cirrose.

No início, mesmo a cirrose pode ser silenciosa (cerca de 40% dos casos). Os sintomas mais comuns são fraqueza, fadiga, perda do apetite, emagrecimento, hematomas e sangramentos espontâneos, irregularidade menstrual, icterícia (pele e olhos amarelados, pelo acúmulo de bile no sangue) e dificuldade de manter a concentração. Também podem ser mais graves, como o coma, vômitos com sangue e acúmulo de líquido no abdome. O hepatocarcinoma surge do mesmo processo de destruição e multiplicação de células que leva à cirrose, através de mecanismos ainda não bem esclarecidos. De um modo geral, considera-se que uma pessoa portadora de cirrose silenciosa ou pouco sintomática tenha um risco de 5% ao ano de desenvolver um hepatocarcinoma.  O hepatocarcinoma é um tumor altamente maligno, que dobra o seu volume a cada 180 dias em média. Mesmo em seu estágio inicial, ou seja, um tumor pequeno, localizado em um fígado com bom funcionamento, dá ao seu portador apenas cerca de oito meses de vida após ser encontrado, se não for realizado nenhum tratamento. No estágio mais avançado, a previsão média é de menos de três semanas de vida após o diagnóstico. Daí a necessidade do diagnóstico precoce do hepatocarcinoma, quando este ainda tem boas opções de tratamento e chance de cura.

Como ocorre na grande maioria das vezes em uma população bem definida, os portadores de cirrose são de fundamental importância que essas pessoas sejam acompanhadas rotineiramente por um especialista habituado ao diagnóstico deste tipo de câncer ainda em suas fases iniciais. O método mais recomendado para isso é a ultrassonografia abdominal periódica, realizada por médico experiente e de exames de sangue, onde são procuradas substâncias que costumam ser produzidas pelas células cancerosas. As mais utilizadas são a alfa-fetoproteína e o PIVKA II.

Uma vez diagnosticado um hepatocarcinoma precoce (menor que 2 cm de diâmetro e sem sinais de acometer outros órgãos), há várias opções de tratamento. A melhor opção, apesar de muito agressiva, ainda é o transplante do fígado, onde o órgão doente é substituído por outro sadio. Outra opção é a hepatectomia, cirurgia onde é retirada a porção do fígado onde está localizado o tumor.

Uma terceira opção, muito utilizada pelos japoneses e que aos poucos vem se tornando difundida pelo mundo é o tratamento percutâneo (pela pele) do tumor. Nessa modalidade terapêutica, o tumor é destruído sem a necessidade de cirurgia. A injeção percutânea de etanol (PEI) é um método simples, realizado sob anestesia local e com raras complicações. Com o auxílio do ultra-som, é introduzida uma agulha especial no centro do tumor, através da pele, onde é administrado álcool absoluto (a 100%), provocando a destruição do câncer. Outro método é a introdução de uma agulha que emite microondas ou radiofrequência no centro da lesão, com efeito semelhante. Apesar de simples, rápido e seguro, o tratamento percutâneo não é tão eficaz quanto o cirúrgico, podendo ser utilizado antes da cirurgia ou em pessoas que não possam ou não aceitem a cirurgia. Um outro tratamento cada vez mais utilizado como paliativo é a quimioembolização da lesão.

Outras possibilidades são a arteriografia com embolização, onde os vasos que nutrem o tumor são obstruídos e a quimioterapia, com resultados muito ruins, não sendo mais utilizada.

 

O Colangiocarcinoma

 

O colangiocarcinoma é o câncer derivado das células biliares, tanto no interior quanto no exterior do fígado (vesícula e ductos biliares). Surge principalmente em homens (3 homens para cada mulher), geralmente entre os 70 e 80 anos. A incidência dessa doença é de 2 a 2,8 casos a cada 100.000 pessoas. As pessoas de maior risco são aquelas portadoras de parasitas das vias biliares (raros no Brasil), colangite esclerosante primária (outra doença que pode levar à cirrose),colite ulcerativa (doença que leva a diarréia crônica, com episódios de sangramento, em adultos jovens) e cálculos biliares.

Esse tipo de câncer cresce silenciosamente nos canais biliares até que estes sejam obstruídos, levando aos sintomas de icterícia, fezes claras e urina escura, além de perda do apetite e emagrecimento. O diagnóstico freqüentemente só é feito após o início dos sintomas, quando as possibilidades de tratamento são poucas e geralmente ineficazes. Quando descoberto em tempo, o tratamento é cirúrgico. Quando este não pode mais ser realizado, são utilizados outros métodos de desobstrução dos canais biliares, para melhorar a qualidade de vida e dignidade do paciente.

 

Tumores metastáticos

 

Pela sua posição estratégica e para cumprir suas funções, o fígado recebe sangue diretamente de diversos órgão e indiretamente de todo o organismo. Por esse e outros motivos, é nele que a grande parte das células cancerosas de outras partes do organismo, que caem na circulação sanguínea, acaba se alojando e produzindo um novo tumor. Esse novo tumor é chamado de metástase.

Localização original de tumores metastáticos no fígado

Local

%

Vesícula

78

Pâncreas

70

Cólon e reto

56

Seio

53

Pele

50

Estômago

44

Pulmão

42

Bexiga

38

Útero

32

Esôfago

30

Rim

24

Próstata

13

 

O diagnóstico de uma metástase hepática pode ser realizado durante a investigação de um tumor em outros órgãos, ou pode ser a primeira manifestação de um câncer de outra localidade. Em alguns casos, apenas a metástase hepática é descoberta e a localização inicial do tumor permanece desconhecida.

As metástases ocorrem de tumores altamente malignos, podendo acometer vários órgãos concomitantemente. No fígado, as lesões tendem a serem maiores e múltiplas, levando à destruição hepática. Por esse motivo, os sintomas iniciais podem ser os mesmos de uma cirrose hepática severa.

O tratamento é muito variado dependendo do tipo de tumor e a sua origem. De modo geral, o tratamento é cirúrgico ou quimioterápico, reservando-se outros procedimentos como os percutâneos apenas para casos excepcionais.

Conclusão

O fígado é um órgão de fundamental importância ao organismo e pode ser acometido por muitas doenças diferentes, a maior parte delas silenciosa. Durante o desenvolvimento dessas doenças, o fígado sofre um processo de destruição de células com proliferação de outras, predispondo-se ao aparecimento de células geneticamente defeituosas que podem se tornar focos de câncer. Devido à alta agressividade do câncer do fígado, pelo fato de que só há bom resultado com o tratamento da lesão inicial e por ser geralmente assintomático nessa fase, é fundamental que os indivíduos de risco façam exames periódicos. Uma vez descoberto o câncer precoce, diversas formas de terapia estão disponíveis, desde as muito agressivas até tratamento clínico com anestesia local.

Os cânceres provenientes das vias biliares e de outros órgãos que metastatizam para o fígado tem um prognóstico mais reservado, também dependendo do estágio do tumor. Novamente, é de fundamental importância que o diagnóstico seja realizado rapidamente para melhorar as possibilidades de cura.

  
 
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